Evento “Qual É o Nosso Feminismo?” reuniu lideranças políticas, militantes e moradores da capital em um bate-papo sobre combate ao feminicídio, mulheres na política e o futuro do feminismo25/03/2026 14:49

Em meio à onda de feminicídios no Rio Grande do Sul, que já registra 23 mortes em 2026, os mandatos das pré-candidatas a deputada federal Laura Sito (PT) e da deputada estadual Natasha Ferreira (PT) realizaram o evento “Qual É o Nosso Feminismo?”, no Bar Ocidente, na última sexta-feira (20). A atividade funcionou no formato de talk show, com a presença de convidadas de diferentes áreas de atuação no estado e intervenções do público.
No palco montado na pista inferior do Bar Ocidente, um sofá com as bandeiras do Brasil e do Orgulho LGBTI+ recebeu as lideranças políticas e sociais para uma conversa conduzida por Laura e Natasha. No fala de abertura, Natasha, que é uma das primeiras travestis eleitas em Porto Alegre, foi taxativa ao comentar os recentes ataques sofridos por parlamentares trans no Brasil.
“Mulheres trans não tiram lugar de mulheres cis em lugar nenhum. Quantas médicas e advogadas trans vocês conhecem? O que essas pessoas retrógradas não querem é ver pessoas como nós no parlamento”, argumentou.
No debate sobre representatividade, Laura Sito, uma das primeiras deputadas negras da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, falou sobre a vulnerabilidade enfrentada por ela e Natasha enquanto mulheres fora do padrão hegemônico:
“Hoje nós afirmamos a presença dos dois corpos mais violentados desse sistema misógino. Vivemos num país em que as mulheres trans têm expectativa de vida de 35 anos e, se forem negras, essa expectativa é de 27 anos. Então a gente precisa se perguntar: qual é a democracia que nós queremos construir? E onde cabe o nosso feminismo nessa luta?”, questionou.
Durante a conversa, a secretária adjunta do Coletivo Nacional de Mulheres do PT e integrante da Executiva Nacional do partido, Misiara Oliveira, ressaltou o significado político das pré-candidaturas de Laura e Natasha.
“Essa dobrada é a maior expressão disso tudo que a gente tá falando aqui, porque são os corpos mais agredidos pelo patriarcado. Vocês têm a potência do feminismo que eu acredito, que é interseccional, popular e que vai ajudar a eleger Lula em 2026”, concluiu.
Telefonemas
Além de responder perguntas sobre temas voltados à militância, as convidadas também recebiam telefonemas, nos quais uma voz misteriosa fazia perguntas mais descontraídas a respeito de experiências comuns à maioria das mulheres. Em uma das ligações da dinâmica, a escritora e ativista Monique Prada, que estava entre as convidadas, respondeu à pergunta: “O que é mais difícil: lidar com um machista declarado ou com aquele que finge ser aliado?”. “Por incrível que pareça, o mais difícil pra mim é enfrentar mulheres que reproduzem discursos machistas e misóginos do que os próprios homens”, afirmou, arrancando aplausos da plateia.
Na mesma linha, Natasha mencionou os ataques direcionados a profissionais do sexo e mulheres trans vindos de correntes do próprio feminismo.
“O debate das profissionais do sexo é cheio de fake news, assim como o debate sobre pessoas trans. Inclusive, eu sou contra esse movimento do Matria – organização feminista que atua contra pautas ligadas à identidade de gênero -, que é totalmente higienista e preconceituoso e ataca as mulheres mais vulnerabilizadas da nossa sociedade”, afirmou.
A vereadora também relatou episódios recorrentes de transfobia institucional no exercício do mandato como estratégia para deslegitimar sua atuação política. Em complemento, Monique acrescentou que o estigma não é nada mais do que uma estratégia para controlar os corpos das mulheres.
Durante o debate, a realidade das periferias também veio à tona, com destaque para o protagonismo das mulheres nos territórios. A líder comunitária Rosa Helena ressaltou que, durante a pandemia e as enchentes, as cozinhas comunitárias foram um importante espaço de formação para as famílias atendidas.
“Além de dar um prato de comida, nós demos consciência, fizemos rodas de conversa, falamos com essas pessoas e conscientizamos. Hoje nós temos cerca de 180 famílias que são ajudadas só por essas mulheres”, conta.
Também presente, a coordenadora do Clube de Mães Marli Medeiros, Marlise Machado, criticou a ausência do poder público nas periferias e salientou a presença de mulheres negras e travestis nesses territórios.
“O que falta é o prefeito olhar pra dentro da periferia. Porque, na minha periferia, na Bom Jesus, 90% dos moradores são mulheres negras e travestis. Todo dia a gente acorda lutando e dorme lutando. A gente acorda com tiroteio e vai dormir com Plano Diretor.”
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Originalmente publicado em Câmara POA